Padrões de beleza que adoecem









Sempre fui magra. Anos após entrar na adolescência, comecei a ganhar um pouco de corpo. Mais ou menos, até os 15 anos, me sentia bonita, não tinha maiores problemas com meu peso.

Por volta dos 16 ou 17 anos, enquanto ainda estava no ensino médio, em decorrência de algumas doenças físicas e, posteriormente, traumas emocionais, comecei a emagrecer bastante. Mas eu não percebia a diferença, me alimentava consideravelmente bem e levava uma vida normal. Foi quando os outros começaram a apontar e a criticar minha magreza.

E assim, dia após dia, eu, que mais magrinha ou mais cheinha sempre havia vivido bem dentro do meu próprio corpo, passei a ouvir calada os diversos comentários negativos dispensados ao meu corpo magro, comecei a internalizá-los e a acreditar neles.

O seguinte pensamento passou a martelar 24h por dia na minha cabeça: “Para ser bonita e aceita, preciso engordar”. Assim, passei a fazer milhares de tratamentos, a comer coisas que não tinha vontade mesmo quando estava sem fome, e a frequentar academias (coisa que detesto fazer).

Cada quilo que eventualmente eu perdia, acabava comigo. A cada: “Nossa, como você tá magrinha”, lá ia eu novamente tentar descobrir como juntar os pedaços e levantar da cama no outro dia sem ter medo de colocar uma calça que, aos meus olhos, iria sobrar mais ainda na cintura.

Passei a desenvolver uma espécie de síndrome do pânico, um medo patológico de emagrecer. Medo de ficar doente e emagrecer. Medo de comer uma coisa estragada e emagrecer. Colocando assim, parece bobo, mas a preocupação com o corpo, a associação que fiz entre o corpo ideal e a felicidade, me tirou grande parte da tranquilidade de viver, da espontaneidade, da segurança; me fazendo preocupada, pessimista, detalhista, extremamente ansiosa e facilmente deprimida.

Fiz e ainda faço muita terapia para conseguir lidar com esse padrão de pensamento que, mesmo que de forma um pouco menos acentuada, ainda insiste em me puxar para baixo. Mas hoje, consigo entender que apesar de eu ter permitido que todo esse medo tomasse uma proporção gigantesca na minha vida, eu não o construí sozinha.

Eu não me sentia feia, até que começaram a dizer que eu seria muito mais bonita se ganhasse uns quilinhos. Eu não me sentia menos gente, até alguém dizer que “eu era legal, mas muito magrinha”. Eu me sentia inteira antes de me dizerem que eu estava a ponto de sumir.

O que mais dói é saber que eu sou mais uma dentre as milhares de mulheres que experienciam situações como essa; que, na tentativa de engordar ou emagrecer, adoecem para atingir um padrão de beleza que nos é empurrado todo dia. E é por isso que meu estômago revira a cada capa de revista que eu vejo carregada de dietas para emagrecer. É por isso que não faço questão de ter a amizade de uma pessoa que chama uma mulher de “caveira” ou de “baleia”.

É por todos esses comentários maldosos a que eu e muitas mulheres ainda somos submetidas que precisamos do feminismo, pois, diferentemente de vitimização, como muitos o definem, ele é, sim, o abrigo de vozes que lutam contra todas essas imposições que já tiraram o meu brilho do olhar; é a certeza de que o belo e o correto sempre serão nada mais do que aquilo que NÓS MESMAS desejarmos ser.



Patrícia Pinheiro 



Foto de Elena Ocho no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
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3 comentários:

  1. Oi, Patrícia, minha conterrânea! Infelizmente, por mais que lutemos contra esses padrões estéticos, eles nunca deixarão de existir, pois são fundamentais para, por exemplo, a economia. Sei que não escolhemos viver num mundo capitalista, mas dificilmente vamos conseguir mudá-los. A única saída é trabalhar a nossa mente para não deixar isso nos atingir, assim como te atingiu :( Eu desejo, do fundo do meu coração, toda a força do mundo para que você supere isso de vez. Há muitas coisas que não temos como lutar contra, como a genética. Por mais que eu tente mudar, é uma tendência natural do meu corpo ganhar peso, então é melhor eu me aceitar e passar a gostar do jeito que eu sou do que ficar sofrendo. É claro que eu gostaria de ser diferente para poder usar outras roupas e etc, mas é impossível eu ser uma Gilese Bündchen hahahah Lembre-se sempre que a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional. Fica bem! Muito bom o seu texto!

    Beijos! Te convido a conhecer meu blog também: http://paradaquinze.com/ <3

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    1. Oi, Dora!
      Conterrâneas? Adorei :D
      Muito lindo e sábio seu comentário, obrigada pela força e pelas palavras pertinentes. Adorarei conhecer seu blog!!

      Beijão <3

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  2. Se você está muito magra, está doente. Se tá gorda, não se cuida. A sociedade sempre vai arrumar alguma maneira de te deixar pra baixo.

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