Vai mesmo, gordinha Difícil não acreditar no feminismo O sutiã cor de rosa Eu não merecia ser estuprada Afinal, o que querem as mulheres O amor mora nos detalhes

Joelhos machucados





Andei sem inspiração para escrever. Pedi uma sugestão ao meu namorado e ele, rindo, respondeu: "Escreve sobre o teu joelho machucado". 

Escorreguei em uma rampa molhada e estou há mais de uma semana soltando "ais" a cada subida de escada. E quando eu esqueço que dói e faço movimentos bruscos? Socorro!

Pensando bem, acho que todos nós vivemos com joelhos machucados.

Somos obrigados a realizar nossas atividades rotineiras mesmo que a dor esteja lá, mesmo com a ferida, visível ou invisível.

Escorregamos, caímos e, ainda que seja necessário que alguém nos puxe, nos levantamos. Mas restam muitas pessoas carregando joelhos machucados por aí.

Muitos corações partidos bombeando sangue.

Muitos pés descalços correndo maratonas. 

Muitos ombros pesados servindo de ombro alheio. 

Vivemos na constante tentativa de esquecer da dor dos joelhos machucados, de mascará-la, postergá-la , até que venha a vida e os bata com força, escancarando-a.

E, assim, entre tapas e subidas, entre dias melhores e piores, entre gritos e lágrimas, algumas dores, eventualmente, vão embora.

Ao menos até que surjam outras rampas molhadas.

Patrícia Pinheiro

A carta que nunca escrevi




Ultimamente, organizando pensamentos, me dei conta de que, apesar de tanta história, nunca uma carta para você foi escrita. Apesar de tantos tipos de sentimentos que já foram experimentados ao longo destes anos, eles nunca pareceram ter urgência por palavras. Até então.

Hoje, da forma mais verdadeira e transparente que for possível – se é que sentimentos podem ser transcritos – eles querem, ainda que soe feio e desconexo, tentar encontrar as palavras.

Não vou fazer dessa carta um relato de experiências, uma releitura dos nossos melhores momentos.

Quero, com ela, apenas denotar um pouco dos seus detalhes, dos nossos detalhes, aqueles que, da forma mais linda ou cruel, quando a dureza do dia a dia por vezes nos faz duvidar da veracidade dos sentimentos, surgem para nos mostrar que, sim, o que sentimos só pode ser amor.

Então, ao invés de só dizer que te amo, posso tentar explicar porque me é impossível chegar a qualquer outra conclusão.

Sei que te amo, pois poucas coisas na vida são tão felizes quanto ver você chegar. É como se, no calor do reencontro, duas semanas fossem dois anos. Chego a desejar que você vá para bem longe, apenas para sentir o frio na barriga da véspera; a felicidade única que é abrir a porta e encontrar você sorrindo do outro lado.

Sei que te amo, pois por mais diferentes que nossas visões de mundo possam ser, consigo, em sua presença, alcançar a paz de poder ser eu mesma a todo instante; a plenitude de me sentir amada sem condições; a leveza de coexistir sem precisar de esforço; sem a necessidade de antecipar palavras e sentimentos, podendo me reinventar a cada segundo.

Sei que te amo, porque sua felicidade aquece meu coração. Porque confundo suas vitórias com as minhas. Porque me pego, muitas vezes, adequando anonimamente o mundo ao seus passos, contando pequenas mentirinhas só para te fazer sorrir.

Sei que te amo, porque a tua presença me acalma, aumenta meu sorriso, prolonga e deixa de prontidão os meus abraços, faz bem para minha saúde.

Acabei de descobrir mais um motivo.

Te amo, porque de todos os textos que já remeti a alguém em minha vida, esse foi o mais difícil, o mais demorado. Não por faltarem razões, mas por saber que, independente do quanto eu me esforçasse para explicar, essa carta jamais conseguiria capturar nem a metade do que eu realmente sinto. E eu preciso que você saiba que é muito grande, que são todos esses motivos e muito mais, que é o que eu ainda nem sei, mas que é, principalmente, a minha insaciável vontade de continuar descobrindo.

Daniela



No princípio do verão de 2012, eu estava parando em uma pousada na praia. Era um pequeno paraíso.

Em um daqueles dias, lembro de não ter acordado muito bem. Estava naqueles momentos em que ficamos introspectivos, remoendo pensamentos.

Resolvi sair do quarto e sentei-me à beira da piscina, com o notebook no colo, concentrada em sabe se lá o quê.

De repente, vejo surgir uma menina de cabelo bagunçado, com seus 7 ou 8 anos.

Ela me observava timidamente e, aos poucos, foi se aproximando. - Qual é seu nome? Ela perguntou. - Patrícia, respondi. - E o seu? - É Daniela. 

A partir daí, comecei a indagar sobre a vida dela e continuamos uma longa conversa, enquanto ela corria atrás do gato da pousada e fugia, gritando de medo, quando ele corria de volta atrás dela.

Ela devorou quase todos os biscoitos de chocolate que eu estava comendo e, em troca, me ofereceu umas bolachas Maria que foi buscar em seu apartamento.

Depois de algum tempo, disse a ela que iria me recolher, pois iria encontrar meu namorado em seguida.

Nos despedimos e retornei ao meu quarto. Após algum tempo, ouço alguém bater na porta. "Deve ser meu namorado", pensei comigo.

Abro a porta e lá estava Daniela, que ligeiramente se agarrou forte em minha cintura dizendo: "Eu te amo, minha amiga!"

Lembro que meus olhos se encheram de lágrimas, enquanto eu a abraçava de volta e retribuía as palavras sinceras e carinhosas.

Em um dia em que minha fé no amor, na pureza e na espontaneidade das pessoas estava abalada, Daniela a trouxe de volta para mim, e, naquele momento, tudo pareceu fazer sentido. 

Nunca mais a vi e sei que, provavelmente, nunca mais irei, mas, sempre que dúvidas e tristezas tomam conta de mim, lembro de Daniela e sorrio.

Patrícia Pinheiro