Difícil não acreditar no feminismo O sutiã cor de rosa Eu não merecia ser estuprada Afinal, o que querem as mulheres O amor mora nos detalhes

Padrões de beleza que adoecem





Por volta dos 16 ou 17 anos, enquanto ainda estava no ensino médio, em decorrência de algumas doenças físicas e, posteriormente, traumas emocionais, comecei a emagrecer bastante. Mas eu não percebia a diferença, me alimentava consideravelmente bem e levava uma vida normal. Foi quando os outros começaram a apontar e a criticar minha magreza.

E assim, dia após dia, eu, que mais magrinha ou mais cheinha sempre havia vivido bem dentro do meu próprio corpo, passei a ouvir calada os diversos comentários negativos dispensados ao meu corpo magro, comecei a internalizá-los e a acreditar neles.

O seguinte pensamento passou a martelar 24h por dia na minha cabeça: “Para ser bonita e aceita, preciso engordar”. Assim, passei a fazer milhares de tratamentos, a comer coisas que não tinha vontade mesmo quando estava sem fome, e a frequentar academias (coisa que detesto fazer).

Cada quilo que eventualmente eu perdia, acabava comigo. A cada: “Nossa, como você tá magrinha”, lá ia eu novamente tentar descobrir como juntar os pedaços e levantar da cama no outro dia sem ter medo de colocar uma calça que, aos meus olhos, iria sobrar mais ainda na cintura.

Passei a desenvolver uma espécie de síndrome do pânico, um medo patológico de emagrecer. Medo de ficar doente e emagrecer. Medo de comer uma coisa estragada e emagrecer. Colocando assim, parece bobo, mas a preocupação com o corpo, a associação que fiz entre o corpo ideal e a felicidade, me tirou grande parte da tranquilidade de viver, da espontaneidade, da segurança; me fazendo preocupada, pessimista, detalhista, extremamente ansiosa e facilmente deprimida.

Fiz e ainda faço muita terapia para conseguir lidar com esse padrão de pensamento que, mesmo que de forma um pouco menos acentuada, ainda insiste em me puxar para baixo. Mas hoje, consigo entender que apesar de eu ter permitido que todo esse medo tomasse uma proporção gigantesca na minha vida, eu não o construí sozinha.

Eu não me sentia feia, até que começaram a dizer que eu seria muito mais bonita se ganhasse uns quilinhos. Eu não me sentia menos gente, até alguém dizer que “eu era legal, mas muito magrinha”. Eu me sentia inteira antes de me dizerem que eu estava a ponto de sumir.

O que mais dói é saber que eu sou mais uma dentre as milhares de mulheres que experienciam situações como essa; que, na tentativa de engordar ou emagrecer, adoecem para atingir um padrão de beleza que nos é empurrado todo dia. E é por isso que meu estômago revira a cada capa de revista que eu vejo carregada de dietas para emagrecer. É por isso que não faço questão de ter a amizade de uma pessoa que chama uma mulher de “caveira” ou de “baleia”.

É por todos esses comentários maldosos a que eu e muitas mulheres ainda somos submetidas que precisamos do feminismo, pois, diferentemente de vitimização, como muitos o definem, ele é, sim, o abrigo de vozes que lutam contra todas essas imposições que já tiraram o meu brilho do olhar; é a certeza de que o belo e o correto sempre serão nada mais do que aquilo que NÓS MESMAS desejarmos ser.


Patrícia Pinheiro 



Foto de Elena Ocho no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Pesquisa de público

Olá, gente!

Como o blog está crescendo cada vez mais, já estava mais do que na hora de fazer uma pesquisa com o intuito de conhecer e ouvir um pouco mais meu público. Por isso, por mais que vocês tenham acabado de conhecer o blog ou já o acompanhem há mais tempo, peço que, se possível, tirem um tempinho para me ajudar respondendo a esta pequena pesquisa. Sejam muito sinceros e não se preocupem que tudo permanecerá anônimo.

Segue o formulário:
 

Àqueles que responderam, fica meu muitíssimo obrigada pelo tempo disponibilizado a ajudar o Patrícia Pinheiro - Textos a ficar cada dia melhor e mais próximo de seus leitores!

O amor mora nos detalhes




















Não sei quanto a outros sentimentos, mas, falando de amor, não penso duas vezes antes de afirmar que, sim, ele se encontra nos detalhes. O amor está na tranquilidade que, muitas vezes, o outro nos traz apenas de fazer-se ali, presente, mesmo que em um cômodo distinto da casa. Nem sempre é questão de cheiro e toque; ele está também no impalpável, na cumplicidade invisível de um sentimento que não demanda excesso de palavras. Amar é também encontrar serenidade nos espaços e silêncios, é não precisar de provas diárias para lembrar-se de que se é totalmente idolatrado e aceito; mas carregar a paz e a certeza de uma entrega mútua que não permite dúvidas, pois é sentida em todos os lugares.

O amor está na telepatia, no conhecer o outro tão bem a ponto de antecipar suas palavras e pensamentos e, mesmo assim, sempre surpreender-se com a magia que é conectar-se tão profundamente com alguém a ponto de pronunciar frases sincronizadas, de ouvir o outro falar alguma coisa e pensar "nossa, eu ia falar exatamente a mesma coisa".

O amor está na falta, na saudade absurda que sentimos do sorriso torto, da textura de sua camiseta favorita, do cheiro do pescoço e do cabelo bagunçado do outro. É esquecer-se propositalmente de todas essas coisas só para se apaixonar novamente por elas no reencontro. O amor é reencontro. É uma constante mistura dolorida e gostosa de uma saudade daquilo que, muitas vezes, ainda nem aconteceu.

O amor está, também, não necessariamente no concordar, afinal, e, felizmente, sempre haverá discordâncias e opiniões divergentes. Um será mais "relax", tomará decisões precipitadas e impensadas e sempre irá adiar mais um pouquinho as consequentes preocupações, enquanto o outro será mais atento, meticuloso, sofrerá mais por antecedência do que por reais consequências. Mas, muito antes de compreensão, o amor está no respeito, na sensibilidade de saber ouvir mesmo que ainda assim não decida concordar, na não necessidade de mudar para agradar ou adequar-se ao outro; mas na liberdade de reinventar-se naturalmente, na tranquilidade de ser exatamente aquilo que se é.

O amor está em todos risos, ora tímidos, ora escandalosos; nos silêncios e também nos barulhos; nas pernas bambas e na força da união de dois corpos; no respirar tranquilo e também no não conseguir respirar; na coragem de incluir alguém nos seus planos, mesmo sabendo que amanhã já não seremos mais os mesmos; mas está, acima de tudo, exatamente no turbilhão de detalhes não denotáveis que surgem em nossas mentes quando alguém nos faz aquela difícil pergunta: "o que é o amor?"

Patrícia Pinheiro


Foto: cena do filme "Before Sunrise"

Texto publicado também nos seguintes sites: Casal Sem VergonhaRonaud.comPsiconline Brasil e CONTI outra.

Resultado do sorteio do livro " O Lado Bom da Vida"

Olá, pessoal!

Como as participações para o sorteio do livro se encerraram ontem, hoje venho com o resultado!

E a ganhadora de um exemplar do livro "O Lado Bom da Vida" é... (musiquinha de suspense)









Parabéns, Taynnara!

Estarei entrando em contato contigo ainda hoje para que possamos acertar os detalhes para o envio do prêmio.

Agradeço também a todos que participaram e fiquem de olho porque vem mais sorteio legal por aí!

Sorteio do livro "O Lado Bom da Vida"




Olá, gente!


Peço desculpas pelo sumiço temporário, mas volto com uma coisa que todo mundo gosta: sorteio!


Irei sortear um exemplar do livro "O Lado Bom da Vida", e, para participar, basta seguir estas três regrinhas bem simples:


- Curtir a fan page do blog no Facebook AQUI;

- Seguir o blog (basta ter uma conta no Google e clicar em "participar deste site", na lateral direita);
- Comentar na postagem avisando que está participando e informando seu e-mail para que eu possa entrar em contato caso você seja o vencedor.



O envio do prêmio fica sob minha responsabilidade e o sorteio será realizado no dia 23/07.



Boa sorte a todos!



É difícil não acreditar em feminismo



É difícil não acreditar em feminismo

Participo, no Facebook, de um grupo feminista no qual só é permitida a participação de mulheres. Trata-se, antes de tudo, de um espaço seguro que muitas encontram para compartilhar suas histórias, dúvidas e angústias. Um espaço onde se dá todo o tipo de troca entre mulheres dispostas a falar e aprender sobre feminismo.

Por achar que espaços como esse são extremamente necessários e enriquecedores, independentemente de participar de forma ativa ou não, procuro, sempre que possível, acompanhar o que está acontecendo por lá. Vejo inúmeros relatos pessoais de agressões físicas e/ou verbais, testemunhos de atos machistas cotidianos a que muitas mulheres são submetidas, bem como o compartilhamento de vitórias e coisas positivas.

Dentre esta pluralidade de trocas e atividades, especificamente uma me saltou aos olhos, me preencheu de emoção e otimismo e me impeliu a escrever este texto. Foi o seguinte: uma das participantes do grupo sugeriu que as demais escrevessem e compartilhassem todas as características físicas que adoram em si mesmas e, dentro de poucos segundos, um turbilhão de respostas começou a surgir.

Mulheres passaram a mostrar fotos de seus cabelos lisos e cacheados, curtos ou longos, e a dizer que não saberiam viver sem eles. Olhos penetrantes e verdadeiros, de todas as cores e tamanhos, sendo eleitos como parte favorita do corpo. Vi fotos de seios, de seios de verdade, seios que são amados justamente por sua tortidão e naturalidade. Cinturas, coxas e bundas não sendo julgadas, mas idolatradas.Predominaram afirmações como “Eu sou linda e gostosa”, “Meu rosto é tão perfeito que, toda vez me olho no espelho, eu penso, puta que pariu, eu casaria comigo!”.

Em uma sociedade em que ainda ditam regras sobre os nossos próprios corpos, em que esteriótipos e ideais insistem em moldá-los fazendo-nos sentir facilmente feias e diminuídas, iniciativas como esta chamam a atenção para a necessidade de mais espaço e voz para exatamente o que se viu ali: incentivo à aceitação e ao amor próprio, à empatia e à sororidade entre mulheres que, diferentemente de egoístas e competitivas, se fazem IRMÃS.

Diante de quaisquer meios como esse que se prestem a abrigar vozes que não diminuem, mas constroem; que não julgam, mas promovem amor e auto-aceitação, é difícil não compreender a necessidade constante da voz plural e libertadora da mulher, é difícil não acreditar em feminismo.

Patrícia Pinheiro

Texto publicado também nos seguintes sites: Blogueiras Feministas e Sociedade Racionalista

"Só é coragem se você tiver medo"


Tudo que a gente precisa, vez ou outra, é que a vida nos surpreenda.

É que, quando tudo está parado, quando dias se repetem por meses em uma sequência prevista de fatos, alguma peça se mexa, desorganizando todas as outras. 

O novo assusta, desassossega, aperta o estômago e acelera o ritmo cardíaco, e ,como de tudo que nos parece ameaçador, nossa tendência é fugir, poupar nossas energias optando pelo seguro, pelo previsível, pelo que não nos tira o sono.

No entanto, se algo te instiga, te preocupa tanto a ponto de te privar de noites de sono, é porque, de alguma forma, você está vivendo.

Se você está cheio de feridas, significa que foi corajoso o suficiente para se expor a elas ou para continuar vivendo buscando uma forma de sará-las ou de conviver com elas.

Aquele que muito se protege dificilmente será ferido, mas, certamente, pouco terá vivido.

Lembro de uma passagem que me marcou bastante de um filme ao qual assisti há um tempo atrás que dizia: "Só é coragem se você tiver medo".

Não é covardia desistir quando as coisas estão difíceis, estão sugando sua energia e lhe fazendo infeliz. Isso é inteligência.

Covarde, penso eu, é aquele que não se deixa surpreender, não se abre para o novo pelo medo do desconhecido. É quando o medo de sofrer é maior que a coragem de ser feliz.

Meu maior medo, acredite, ainda é o de não sentir medo algum.



Patrícia Pinheiro



Texto publicado também no site Psiconline Brasil.